Por Jonathan Menezes

As Escrituras nos ensinam que precisamos prestar honras às pessoas; não como forma de engrandecê-las, mas de engrandecer a Deus, que as fez. A ideia é simples: honrando ao outro, honramos ao Senhor, pela dádiva de sua existência.

Quero hoje, em breves palavras, honrar a vida do pastor e escritor norte-americano, Eugene Peterson, falecido na última segunda-feira, dia 22 de outubro, aos 85 anos de idade.

E a tonalidade não poderia ser outra, a não ser a pessoal. Pois Peterson foi um desses raros escritores capazes de unir reflexão profunda e pessoalidade em seus escritos, ensinando a teólogos, leigos ou especialistas, especialmente aos jovens ingressantes na “carreira”, que Deus está menos interessado em quanto conhecemos sobre Ele e mais em nosso amor. Que o conhecimento de Deus tem a ver menos com as abstrações da mente e mais com a orientação do coração (cf. Dt 6:5).

Peterson também ensinou muito sobre o ministério pastoral. Em verdade, seus escritos ajudaram a salvar minha vocação, porque neles encontrei uma forma, a meu ver, sábia de lidar com minha tenra criticidade em relação a alguns modelos pastorais, que assim posso resumir: se a “ordem” – religiosa, institucional e cultural – é, tantas vezes, subversiva em relação ao que ensina o evangelho, que tal então se, sob a guia do próprio evangelho, subvertermos a “ordem” ao invés de abrir mão do pastorado desqualificando-o sob generalizações, como tantos o fazem? Peterson ousou propor, em um de seus mais de 30 livros, que pastores são desnecessários. Não porque são irrelevantes ou sem valor, mas no sentido de que sua vocação não existe para satisfazer os ditames da cultura, ou para suprir anseios exóticos e expectativas egocêntricas da congregação, tampouco deve servir como “eixo” que mantém a igreja unida (papel usurpado do Espírito Santo). Aqui ele diz algo provocador: “Temos um trabalho importante a realizar, mas, se não o fizermos, Deus pode em qualquer momento encontrar outra pessoa, que provavelmente não será um pastor” (Peterson, 2001:3).

Assim, a igreja necessita de pastores kenoticos (a exemplo do próprio Cristo, conforme Fp 2:5-11), que se esvaziem da pretensão à onipotência, onisciência e onipresença, e que trabalhem incansável e amorosamente, nos bastidores, para que as pessoas sejam, para que desenvolvam sua fé até à maturidade, nutrindo “o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus”.

Peterson foi esse tipo de pastor, pelo que testemunham seus escritos e as pessoas que tiveram a chance de com ele conviver. Em uma de suas confissões autobiográficas, ele afirma que, desde cedo, sabia não querer “ser um pastor cuja responsabilidade fosse a de administrar ‘essa maldita igreja’. Não queria ser um profissional da religião cuja identidade fosse institucionalizada. Não queria ser um pastor cujo senso de valor dependesse da aprovação ou do desprezo das pessoas. Em suma, não queria ser pastor do jeito que era mais comum na cultura consumista e de culto à celebridade que imperava nos Estados Unidos” (Peterson, 2011a:268-269).

Essa busca pela autenticidade deu a ele “a missão vocacional de escritor da Escritura vivida, da teologia vivida”. Soube traduzir como poucos, com fluência poética e visceralidade prática, as verdades da Escritura em diálogo com uma vasta lista de autores do mundo cristão e não-cristão. Mostrou o quanto pode ser rica a teologia cristã, enquanto linguagem, quando feita em diálogo crítico-construtivo com outras formas de linguagem: poética, literária, artística e do cotidiano. Isso se evidencia no sério e belíssimo – sim, porque a seriedade acadêmica pode fazer companhia ao deleite estético – trabalho de tradução da Bíblia em linguagem contemporânea, que ele levou 10 anos para concluir, intitulado como The Message (A Mensagem). “A Mensagem”, a meu ver, é a expressão cabal do que seu tradutor anuncia: que a Bíblia nos faz um convite “à participação na obra e na linguagem de Deus” (Peterson, 2011b:13).

Ou seja, os livros que compõem a Bíblia são menos uma expressão final do falar e do agir de Deus, e mais um convite ao constante discernimento e vivência da Revelação, que é viva, dinâmica e eterna.

A própria Bíblia atesta que Deus nunca parou de se revelar, de falar e de agir, e o faz por diferentes e até mesmo inusitados meios. Peterson sabia disso. Tanto que um de seus principais insights espirituais foi resultado da leitura que fez de um filósofo ateu: Friedrich Nietzsche. Em Além do bem e do mal, Nietzsche defendeu que “a coisa principal ‘no céu e na terra’ é obedecer muito tempo e numa mesma direção”. Disso resultaria, raciocinava o filósofo, em algo pelo qual vale a pena viver a vida na terra, “algo de refinado, de louco, de divino” (Nietzsche, 2011:100).

Peterson afirma ter percebido na hora que esse texto faria parte de sua vida para sempre. Como pastor, ele entendeu que seu papel era estimular nas pessoas a percepção de que “tudo na Escritura e em Jesus é para ser vivenciado”, e decidiu fazer isso pacientemente, permanecendo ao lado das pessoas sem fantasiar ou esperar resultados imediatos; localmente, abraçando as condições da cultura local de sua congregação; e pessoalmente, conhecendo cada pessoa pelo nome, respeitando suas histórias e tratando-as com dignidade (Peterson, 2011a:273-274).

Posteriormente, Peterson escreveu um livro que recebeu esse título: A long obedience in the same direction (uma longa obediência numa mesma direção). Embora seu editor não tenha gostado do título, insinuando que “obediência” era uma expressão sem apelo no mercado editorial, ele insistiu que se tratava de “uma palavra de protesto contra o individualismo novidadeiro e egocêntrico da espiritualidade americana” (Peterson, 2011a:275). Daí seu subtítulo: o discipulado em uma sociedade instantânea. De fato, escrever um livro sobre espiritualidade cristã nesse tipo de sociedade pode ser, do momento da escrita ao da publicação, um ato de resistência!

Obedecer, resistir, e persistir em uma mesma direção: eis um dos legados espirituais que a bonita e inspiradora trajetória de Peterson – ser humano, pastor, escritor – nos deixa. A FTSA reconhece com gratidão a vida de Eugene Peterson. Ele em si é “uma escola teológica”. Sua paixão por Deus e Sua Palavra continuará marcando gerações. Assim como Abel, cremos que será o mesmo Eugene Peterson que, “também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 14:4). Uma santa influência!

Descanse em paz, querido pastor, no terno e eterno abraço do Supremo Pastor: Jesus Cristo!

Referências bibliográficas:
PETERSON, Eugene H. Memórias de um pastor. São Paulo: Mundo Cristão, 2011(a).
__________. A Mensagem: Bíblia em linguagem contemporânea. São Paulo: Vida, 2011(b).
__________.; DAWN, Marva. O pastor desnecessário. Rio de Janeiro: Textus, 2001.
__________. A Long Obedience in the Same Direction: discipleship in an instant society. Downers Grove, Illinois: Intervarsity, 1980.

Jonathan Menezes é Coordenador da Graduação Presencial na FTSA; Doutor em História pela UNESP; Mestre em História Social pela Universidade Estadual de Londrina; Professor de disciplinas na área de Análise da Realidade; Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil.